O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta milhões de pessoas no mundo e se manifesta de maneiras únicas em cada indivíduo. Apesar do aumento da visibilidade e da conscientização nos últimos anos, o autismo ainda é cercado por muitos mitos e informações equivocadas que dificultam o acolhimento, a inclusão e o respeito às pessoas com TEA. Desmistificar essas ideias é fundamental para promover uma sociedade mais empática, justa e acolhedora.

Neste texto, vamos abordar os mitos mais comuns relacionados ao autismo e apresentar verdades baseadas em evidências científicas e na vivência de pessoas autistas e seus familiares. Acreditamos que a informação correta é uma forma poderosa de cuidado — por isso, ela precisa ser compartilhada.

Mito 1: Todas as pessoas autistas têm deficiência intelectual

Verdade: O autismo é um espectro, o que significa que há uma grande diversidade de perfis. Algumas pessoas autistas podem ter deficiência intelectual associada, mas muitas outras têm inteligência dentro ou acima da média. O nível de suporte necessário varia de acordo com as características de cada indivíduo. Importante lembrar que ter uma maneira diferente de pensar, comunicar ou agir não é sinônimo de limitação intelectual.

Mito 2: Pessoas autistas não sentem emoções ou não têm empatia

Verdade: Esse é um dos mitos mais prejudiciais. Pessoas com autismo sentem emoções intensamente, mas podem ter dificuldades para expressá-las de forma que os outros compreendam. Além disso, a empatia pode estar presente, mas ser diferente do padrão neurotípico — algumas pessoas com TEA têm empatia cognitiva reduzida (dificuldade de entender o que o outro sente), mas empatia afetiva preservada (sentem profundamente a dor do outro). Ou seja, sentir, elas sentem — só não necessariamente demonstram da maneira esperada.

Mito 3: O autismo é causado por vacinas

Verdade: Essa ideia é totalmente falsa e já foi amplamente refutada por estudos científicos sérios. A origem desse mito vem de um estudo publicado em 1998, que mais tarde foi considerado fraudulento e retirado da comunidade científica. Diversas pesquisas confiáveis demonstram que não existe nenhuma relação entre vacinas e o desenvolvimento do autismo. A propagação dessa desinformação, além de infundada, é perigosa, pois estimula a hesitação vacinal e coloca a saúde pública em risco.

Mito 4: Pessoas autistas não gostam de socializar

Verdade: Pessoas com TEA podem ter dificuldades de interação social, mas isso não significa que não gostem de estar com outras pessoas. Muitas vezes, elas apenas preferem interações mais previsíveis, calmas ou com pessoas de confiança. A dificuldade em compreender sutilezas sociais, expressões faciais ou linguagem não-verbal pode fazer com que se sintam inseguras em ambientes sociais — o que não deve ser confundido com falta de interesse.

Mito 5: Todas as pessoas autistas são iguais

Verdade: O autismo é um espectro, e não existe um “jeito certo” ou único de ser autista. Algumas pessoas são verbais, outras não. Algumas precisam de apoio em quase todas as tarefas do cotidiano, enquanto outras vivem com autonomia. Algumas gostam de contato físico, outras se incomodam. Cada indivíduo tem seu jeito de ser, suas potencialidades e desafios. Reduzir o autismo a um estereótipo — como o “gênio antissocial” ou a “criança que balança as mãos” — apaga a diversidade e atrapalha o reconhecimento de diferentes perfis.

Mito 6: Autismo tem cura

Verdade: O autismo não é uma doença e, portanto, não tem cura — nem precisa ter. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento e faz parte da identidade da pessoa. O que existe são intervenções terapêuticas que ajudam no desenvolvimento de habilidades sociais, de linguagem, motoras, entre outras. O objetivo dessas terapias não é “curar”, mas promover mais qualidade de vida, autonomia e bem-estar para a pessoa autista. Aceitar o autismo é parte fundamental do cuidado.

Mito 7: O diagnóstico é fácil e pode ser feito por qualquer profissional

Verdade: O diagnóstico do autismo é complexo e deve ser feito por uma equipe multidisciplinar especializada, que pode incluir médicos psiquiatras, neurologistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Ele envolve observação clínica, histórico familiar e avaliações comportamentais. O diagnóstico precoce é muito importante, mas nem sempre fácil, principalmente em casos com manifestações mais sutis. A escuta atenta dos familiares e o acompanhamento constante são fundamentais.

Por que combater os mitos é tão importante?

Os mitos sobre o autismo alimentam o preconceito, a exclusão e a desinformação. Eles dificultam o acesso a diagnósticos, terapias e direitos. Crianças que não se encaixam nos estereótipos muitas vezes não são reconhecidas como autistas e deixam de receber o apoio necessário. Jovens e adultos, por sua vez, podem sofrer estigmas e discriminação em ambientes de estudo e trabalho.

Além disso, os mitos afetam profundamente as famílias, que enfrentam olhares de julgamento, conselhos infundados e cobranças excessivas. Por isso, divulgar informações corretas e atualizadas é um gesto de acolhimento e cuidado. Quando combatemos os mitos, abrimos espaço para o respeito, a empatia e a inclusão.